Notícias & Blog

Capítulo 01 – Os Mecanismos de Defesa do Coração

Sinopse

O que você já perdeu enquanto tentava proteger o seu coração?

Rebeca, Luiza e Marcos são jovens universitários em Belo Horizonte e têm algo em comum: tudo está dando errado em suas vidas amorosas.

Os pais de Rebeca estão falidos e ela tem uma decisão importante a tomar. Ou voltar para o interior e desistir da faculdade, ou morar de favor com um amigo de infância — e seu antigo crush. Luiza não quer admitir que está em um relacionamento abusivo, apesar de todos os sinais. Marcos está apaixonado por uma de suas melhores amigas, mas esconde dela um importante segredo que pode mudar tudo.

Enquanto Rebeca, Luiza e Marcos tentam resolver seus problemas, descobrem que o mais difícil é superar os mecanismos de defesa do coração.

O quão longe eles irão para quebrar essas barreiras e encontrar o amor?

O coração é protegido por mecanismos.
Ele entra em modo de defesa toda vez que alguém ameaça quebrá-lo.
Porém, as dores também fazem parte dos pedacinhos que formam os nossos corações.
Então: vale a pena defendê-lo?

Mecanismo I – Negação

Ato ou efeito de negar uma situação ou sentimentos. Às vezes, ambos. 

Capítulo 01

Rebeca

Corro para o banheiro que fica de frente à sala dos professores. Geralmente, é o único que tem papel higiênico em todo o prédio da Letras. Me escondo na cabine da direita e leio os comentários na parede, tentando me acalmar. Nem aqueles sobre sexo oral me fazem rir — como de costume.

Tento equilibrar a alça da mochila na fechadura. Tiro o celular lá de dentro e reparo que minhas mãos estão tremendo. Nossa, já faz muito tempo que isso não acontecia. Droga de ansiedade. 

Leio de novo as mensagens no WhatsApp que me causaram tanto medo:

Mãe: Vamos conversar hj por chamada

Mãe: Importante

Mãe: Depois que você chegar da UFMG

Rebeca: Oq rolou????

Rebeca: Tá tudo bem? 

Mãe: Tudo bem

Eu nunca vou entender porque as pessoas fazem isso. Se tem algo a dizer, só diga. É tortura fazer uma ansiosa esperar. Mãe, você me conhece melhor do que isso. Mas eu também a conheço, e já presumo o que vem adiante: os problemas financeiros da empresa. Mordo a unha do dedão até as lascas de esmalte preto grudarem no dente.

Me sinto tentada a abrir a mochila e engolir um calmante, embora tenha prometido a mim mesma que iria moderar. Só em situações super críticas. E essa… ainda não é. Aproveito a visita ao banheiro e encaro minha imagem no espelho quadrado. Será que eu sempre pareço tão cansada assim? Pego o gloss na mochila e passo uma camada fina. Batons matte são a nova moda, mas eu me recuso. Sou do time do gloss e do brilho labial. Sempre serei. Reparo em uma espinha no nariz e me pergunto se as pessoas percebem o quão abertas as minhas narinas são.

— Sim — aquela vozinha irritante responde dentro da minha cabeça. 

Volto para a sala com passos desanimados. Odeio as aulas de linguística aplicada. A faculdade devia entender que há uma diferença entre as pessoas da linguística e as da literatura. E eu, claramente, prefiro a última opção. 

Rabisco alguns poemas na última folha do meu caderno do ursinho Pooh até que a professora nos diz que vai entregar as provas (que fizemos há mais de um mês!). Droga. Logo hoje.

Infelizmente, meu nome começa com R. Sempre sou uma das últimas na chamada. Quando ela finalmente grita meu nome, levanto da cadeira com tanta pressa que deixo meu celular cair. Me baixo sem nenhum cuidado e tenho quase certeza de que o pessoal lá de trás viu minha calcinha (nota mental: parar de usar vestidos na faculdade — jeans é sempre a escolha certa). Vou apressada até a mesa e ela me entrega a prova. Vejo muita pena em seus olhos. 

E há dor nos meus. Quinze pontos em trinta. Puta que pariu. Como eu fui capaz de perder quinze pontos nessa prova? Já posso dar adeus ao meu conceito A. Vou até minha carteira e quase me jogo. Encaro minha prova em completa desolação. Será que eu fui a única? Eu deveria só pegar matérias em comum com a Luiza, aí eu teria algum meio de comparação.

Tento dar uma espiada na prova da moça sentada na minha frente. Consigo ver um dois e um sete. Merda. Quer dizer, bom para ela. Minha garganta começa a ficar seca e sinto um nó se formando. Já sei o que vem em seguida.

Corro de volta para o banheiro. Espero que ainda tenha papel para eu secar minhas lágrimas. 

Quase nunca tem, mas as lágrimas sempre saem mesmo assim. 

***

O telefone começa a tocar e eu atendo à chamada do WhatsApp como se minha vida dependesse disso. Se for mesmo problemas financeiros, pode ser que dependa.

— Oi, mãe — eu digo.

— Como eu viro a câmera? — Fico encarando a parede da cozinha da casa dos meus pais até que minha mãe, finalmente, consegue mudar para a câmera de selfie. — Oi, meu amor! Estamos com saudades!

Meu pai aparece no fundo. Assim como eu, ele parece cansado. Muito cansado. Ele ainda está usando o uniforme preto e amarelo e sua barba está malfeita. 

— Então, filha, você sabe que a empresa do seu pai tá com problemas…

— Eu sei. — Minha pele já começa a ficar fria.

— As coisas pioraram — meu pai complementa. — Vamos ter que fechar as portas.

Merda. Ver a tristeza nos olhos dos meus pais parte o meu coração. Eu sei o quão duro eles deram, durante todos esses anos, para fazer a empresa continuar existindo. E compreendo que fechar as portas significa que teremos de viver com o salário de professora da minha mãe — e isso não será suficiente.

— Beca, não vamos ter como continuar ajudando você a morar em Belo Horizonte — minha mãe diz. 

— Eu sei — digo, apesar de estar relutando para admitir. 

Lágrimas começam a se formar em meus olhos. Meu coração bate desesperado. Tento não transparecer meus sentimentos, quero parecer forte para meus pais. Fico encarando a tela enquanto eles me encaram de volta. 

Não há o que fazer. O meu salário do estágio mal cobre o aluguel do apartamento que já divido com Luiza e Fernanda. Sem a ajuda dos meus pais, não tenho como me sustentar em BH. O período para se inscrever para conseguir uma vaga na moradia universitária já passou. E sem um lugar para morar, não tem como eu continuar na faculdade.

— Eu vou dar um jeito, não se preocupem — eu falo, mas não há confiança no meu tom de voz.

— Na verdade, filha, nós conseguimos uma solução temporária — meu pai diz todo animado. — Nós demos um jeito! Você se lembra do João, filho do Zé Carlos?

Como eu poderia esquecer? 

Meu estômago quase revira com a lembrança. João, meu antigo vizinho, por quem eu era completamente apaixonada quando tinha uns onze anos. Eu sabia que ele também estudava na UFMG, mas faz muito, muito tempo que não tenho notícias dele (só uma leve stalkeada há uns dois anos e, aliás, ele estava mais lindo do que nunca).

— Lembro sim. Por quê?

— Você sabe como os pais deles são próximos da gente, sempre querendo ajudar, né? Então, o João disse que você pode morar com ele até você conseguir vaga na moradia ou até a nossa situação se ajeitar. Ele mora sozinho bem pertinho da universidade.

Minha pele passou de gelada para em chamas — igual ao vestido da Katniss, de Jogos Vorazes (ou foi no segundo livro que o vestido era assim? Deixa para lá, não importa). Merda. Morar com um… garoto? Horrível. Morar com o ex-amor de infância que é super rico (e gato)? Pesadelo total. 

— De jeito nenhum. Não vou morar de favor. Especialmente com o João. 

— Ou é isso ou é voltar para Uberlândia, Rebeca. 

Fico em silêncio, encarando o celular. Dar uma escolha para alguém tão indecisa como eu é… tortura. 

— Vou pensar melhor sobre isso — murmuro. 

Meus pais jogam conversa fiada comigo, tentando tirar o foco das notícias ruins. Eu tento transparecer calma e alegria, não quero ser mais um motivo de preocupação. Quando eles finalmente desligam, tento pensar em todas as outras opções. Não há nenhuma. Tenho poucos amigos em BH e nenhum com lugar e disposição para bancar o meu aluguel. E todo jovem universitário sabe bem como os aluguéis são caros. Começo a morder as unhas. 

Abro o Instagram e procuro o perfil do João. É engraçado como já fomos inseparáveis, mas hoje somos dois estranhos com recordações em comum. Ele era o meu melhor amigo de infância. E eu era completamente apaixonada por ele. Hoje, eu sequer sigo ele nas redes sociais. 

Já faz uns dois anos que o vi pelo Facebook. Hoje, vejo suas fotos e reparo como ele está diferente. Não é mais aquele nerd magrelo e de óculos (que sempre ganhava de mim no Yu-Gi-Oh). Está mais forte, barbudo e muito mais bonito. Virou o típico hétero top que faz Engenharia. Meu Deus. Rebeca, sem julgamentos precipitados!

Analiso meu coração e não sinto nada vendo as fotos dele, além de reconhecer sua beleza óbvia e padrão. A única coisa que sinto é vergonha. Morar de favor… ou ter de trancar a faculdade e sair do estágio — que foi tão difícil de conseguir. 

Anoto todas as minhas possibilidades num caderno enquanto choro e espero por Luiza. Talvez ela consiga me dizer o que fazer — deixar outra pessoa tomar as decisões por você é uma excelente estratégia para os indecisos como eu.

Por fim, Luiza chega do curso de francês e ouve com bastante atenção todas as minhas reclamações, me pedindo para repetir uma parte ou outra que foi interrompida pela voz chorosa e catarro. Quando termino, ela revira os olhos ao dizer:

— Vamos lá. Opção um: voltar para casa dos seus pais no interior, largar o estágio e a faculdade. Opção dois: dividir apartamento com um bonitão rico? Meu Deus, Rebeca, essa é a escolha mais fácil do mundo. Quem está numa situação bosta sou eu, não você. Se você soubesse o que aconteceu hoje… 

E eu sei que ela vai me falar sobre o babaca do namorado. Quem eu odeio. Quem eu quero socar.

É, talvez meus problemas não sejam tão ruins assim. A menos que João também tenha se tornado um babaca. 

Veremos.

Quer ler o resto? Veja como adquirir o livro:

Parcerias – Lançamento de “Os Mecanismos de Defesa do Coração”

Se você tem um IG literário quer ser meu/minha parceiro(a) para o lançamento de Os Mecanismos de Defesa do Coração, continue lendo para saber mais sobre o processo!

Os influencers literários desempenham, hoje, um papel fundamental na literatura. Mais do que divulgação, eles permitem a criação de nichos literários, de pequenas comunidades que se apoiam e que compartilham o mesmo amor: a literatura.

Sempre que eu termino de escrever um livro, já fico imaginando como será o retorno dos leitores, especialmente como serão as resenhas. Então, é com MUITA ALEGRIA (e ansiedade) que anuncio a abertura de parcerias para o lançamento de OMDDDC.

Saiba mais sobre o livro:

O que você já perdeu enquanto tentava proteger o seu coração?

Rebeca, Luiza e Marcos são jovens universitários em Belo Horizonte e têm algo em comum: tudo está dando errado em suas vidas amorosas.

Os pais de Rebeca estão falidos e ela tem uma decisão importante a tomar. Ou voltar para o interior e desistir da faculdade, ou morar de favor com um amigo de infância — e seu antigo crush. Luiza não quer admitir que está em um relacionamento abusivo, apesar de todos os sinais. Marcos está apaixonado por uma de suas melhores amigas, mas esconde dela um importante segredo que pode mudar tudo.

Enquanto Rebeca, Luiza e Marcos tentam resolver seus problemas, descobrem que o mais difícil é superar os mecanismos de defesa do coração.

O quão longe eles irão para quebrar essas barreiras e encontrar o amor?

Gênero: Romance Young Adult

Objetivos da Parceria

O objetivo da parceria é estabelecer um compromisso de troca, ou seja, os parceiros e eu devemos demonstrar engajamento nas respectivas redes sociais. Em suma, espero que os parceiros ajudem na divulgação do livro.

Os parceiros deverão escrever e publicar uma resenha do livro (em formato (texto, vídeo, etc) escolhido pelo próprio parceiro) em até 60 dias (dois meses) após o recebimento ou empréstimo no KU do e-book.

Caso o parceiro não tenha assinatura do Kindle Unlimited, ele receberá um vale-compras no valor do livro para fazer a aquisição.

Os parceiros que tiverem interesse poderão me auxiliar na organização de leituras coletivas e campanhas de resenha premiada.

Compromisso da Autora

Eu me comprometo a me engajar nas redes sociais dos parceiros, sempre curtindo e comentando os posts possíveis; e sempre na proporção que o parceiro se engajar em minhas redes. Ou seja, a troca será mútua e justa.

Todos os parceiros selecionados serão listados em uma página no meu site, com seus respectivos links de redes sociais, e estarão em um destaque no meu Instagram.

Os parceiros que não tiverem Kindle Unlimited receberão um vale-presente com o valor do livro (para realizarem a compra do ebook).

Receberão também os brindes do livro e brindes de outras publicações minhas.

ATENÇÃO: a parceria é para o livro em versão digital (e-book). Eu irei sortear um exemplar físico do livro para os parceiros.

Vamos ser parceiros?

Para participar da seleção, preencha o formulário abaixo até dia 11 de junho. O resultado será divulgado em 13 de junho no meu Instagram.

ATENÇÃO: a parceria será firmada entre autora e influencer e não entre editora e influencer.

Filha das Sombras – Parte 3

Ainda não leu as outras partes do conto? Clique nos botões abaixo:

Filha das Sombras – Parte 3

Após uma longa viagem, finalmente chegamos em Córvia, ou melhor, nas ruínas do que um dia fora a cidade. Lá, senti as pontas dos meus dedos fumegarem — da mesma forma como eu, tantas vezes antes, havia me queimado enquanto fazia minhas poções. Olhei para Belisa, que parecia não sentir dor nenhuma. Ninguém parecia.

Continuamos nossa exploração do lugar. Aquele deveria ser o melhor dia da minha vida, porém, eu estava cansada, com saudades de casa e, principalmente, amedrontada. Podia ouvir um zumbido, um sussurro… aquela voz iria voltar, eu sabia. As construções de pedra clara, tão castigadas pelo tempo, não faziam meus lábios sorrir. Córvia parecia como qualquer outra cidade, a diferença é que essa havia sido abandonada. 

No fundo, eu sabia o porquê. 

— É lindo, não? — Belisa perguntou enquanto me puxava pela mão, me guiando. — Você precisa ver isso aqui.

Caminhamos rapidamente até uma parede de pedras que parecia muito mais antiga do que tudo que já havia visto. Ao redor, um mato alto era prova do poder do tempo. 

— O que é esse lugar? 

— Calma, Ágata. Você verá. — Belisa sorriu. Por um breve instante, todas as preocupações que pesavam meu coração cessaram. Ela tinha esse poder sobre mim.

Mas a calma não durou. Já estávamos atravessando os portões inexistentes. A primeira coisa que vi foi uma enorme casa, dessas que vemos raramente. Uma construção imponente, alta…

— A casa do Governador — murmurei.

— Isso mesmo — Belisa confirmou. — Espere só ver o que encontramos aqui.

Belisa entrelaçou seus dedos finos nos meus. Dava para ver que o grupo dela já havia explorado a área, pois um pequeno caminho se formava em meio ao mato. 

Entramos na antiga casa. Não havia nada lá. No lugar das janelas, havia buracos por onde a luz solar entrava. Belisa já sabia onde pisar e do que desviar. Subimos a escada até o segundo nível. 

— Aqui era a biblioteca, de acordo com os nossos registros. Só que descobrimos mais! — ela sorriu e apontou para um buraco na parede que ficava próxima à escada. — Essa parte havia sido marcado com uma runa. Quando quebramos, descobrimos algo… estranho.

Belisa uniu o polegar ao dedo médio, fazendo um estalo. Uma tímida faísca saiu de suas unhas.

— Você é uma remanescente! — eu gritei, surpresa e animada. — Você tem magia!

Para mim, Belisa já era encantadora e interessante… ser uma remanescente só era o último ingrediente para tornar a poção perfeita. 

— Precisamos de luz lá dentro. 

Com a pequena chama produzida por ela mesma, Belisa nos guiou até o buraco. Ela entrou com certa facilidade, já que era pequena e muito magra. Eu não. Tive de me contorcer até conseguir atravessar aquela parede. Não consegui ver nada, apenas o que estava logo à nossa frente, pois a luz de Belisa era escassa.

Chegando ao centro do que parecia uma sala, o zumbido em meus ouvidos se intensificaram. Senti frio, como se estivesse colhendo ervas no inverno. Vi a figura de Liana, que chorava a minha morte.

Mas eu não estava morta. 

— Pelo menos, não ainda — a voz em minha cabeça ecoou. — Estará em breve.

Olhei para frente, desvencilhando-me daquele breve instante de terror, da certeza da minha morte. Belisa apontava sua chama para o que parecia um túmulo coberto por runas.

— Vem aqui ver isso! — ela me convidou.

Cheguei mais perto. As runas pareciam ter sido escritas com sangue. Eram do mesmo tipo do caderno que eu havia visto.

— Belisa, acho melhor irmos embora — sussurrei. Estava apavorada.

— Não conseguimos abrir o túmulo. Achamos que deve ter algo muito importante aí. E você, Ágata, talvez possa abri-lo. 

Minhas grossas sobrancelhas se juntaram. Eu? Como eu poderia fazer isso?  

— Soube disso no momento que te vi — Belisa respondeu, como se estivesse lendo meus pensamentos. — Na verdade, desde que vi a pedra no seu pescoço. 

Meu colar. Involuntariamente, minha mão segurou a pedra. Não havia nenhum brilho, nenhuma luz. 

— Belisa, você não está fazendo sentido algum.

Ela sorriu — da mesma forma que as mães sorriem quando suas crianças estão confusas, mas de uma maneira adorável. Como eu costumava fazer com Liana. 

Belisa apontou para uma abertura no túmulo. Ela nem precisou aproximar sua luz para que eu visse que a pedra do meu colar tinha a mesma forma. 

— Eu não contei para ninguém, Ágata. Sei que você apareceu aqui por coincidência. Só que eu não acredito em coincidência. E o resto do pessoal… bem, eles não entenderiam. Eu entendo. Vejo em seus olhos. 

Seguindo cada instinto do meu coração, puxei Belisa pela cintura e levei meus lábios até os seus. No fundo, eu sabia que não estava aqui por uma coincidência. Eu ouvira o chamado, o mesmo chamado que me confirmou que eu morreria. Aquele seria meu último respiro. Não veria mais Liana nem minha família. Ao menos, beijaria aquela mulher tão fascinante. 

— Você é uma caixinha de surpresas — ela disse, desvencilhando-se de mim e puxando meu colar. O couro fino se rompeu.

Belisa segurava a pedra em suas mãos. Ela estalou os dedos de novo para produzir uma nova chama. Com a mão esquerda, levou a pedra até a abertura. Não foi nenhuma surpresa quando vimos que o encaixe era perfeito. O túmulo de pedra estralou e Belisa empurrou a tampa com a mão livre. Ela era muito mais forte do que parecia. 

Um cheiro podre e adocicado invadiu nossas narinas. A princípio, foi um só odor muito, muito ruim. Mas logo aquela fumaça mórbida estava fechando nossas gargantas. Belisa e eu começamos a tossir — ela em uma intensidade muito maior do que eu.

— Está chegando a hora — a voz explodiu nos meus ouvidos.

Belisa aproximou sua mão flamejante para perto do seu rosto. Seus olhos pareciam que iam saltar do rosto. Sua boca, que estava há pouco tempo encosta na minha, escorria um líquido escuro. Belisa cuspia e tossia, até que a luz que ela produzia se apagou.

— A hora chegou. Você aceitou o chamado, Ágata.

Meu coração soube. Belisa estava morta, sufocada. O cheiro não estava mais lá. Com medo e completamente paralisada, me arrastei até o seu corpo. O quarto estava mergulhado na escuridão. Senti a pele macia de Belisa e me agarrei a ela. Comecei a me dar conta de que havia ficado entorpecida enquanto ela agonizava. Agora, só podia esperar pela minha própria morte.

A morte não veio. Na verdade, nunca me senti tão viva, como se o meu interior queimasse da melhor forma possível. Era como se a vida de Belisa estivesse se irradiando até mim.

— Agora você sabe, Ágata. Faça a coisa certa — a voz disse com firmeza.

A pedra, que antes adornava o meu pescoço, mas agora era a chave de um túmulo, explodiu em cores, iluminando todo o recinto. Vi runas de sangue irem do chão até o teto. Belisa, que antes era uma linda moça, estava tão seca e pálida quanto uma folha no outono. 

E eu queimava. Meus dedos queimavam. 

Fiz como Belisa, levando um dedo até o outro, provocando um barulho, uma fricção. Ao contrário dela, não fiz nenhuma faísca. Lancei uma bola de fogo até a parede oposta a mim. 

O quarto ardia em chamas enquanto lágrimas caíam do meu rosto. Meus pés começaram a correr para fora daquele lugar, mas minha essência ficara lá dentro. 

— Acredito que fará a coisa certa, Ágata — a voz sussurrou dentro da minha cabeça. — Esta é a magia que você tanto quis. 

Olhei para a casa do Governador, lembrando-me do cheiro podre, do sangue nas paredes, do corpo deformado de Belisa. Aquele era o preço. Córvia estava em ruínas por um motivo. Era o meu dever garantir que permanecesse assim. Pelo bem de Liana e do resto de Esfix. Eu havia aceitado o chamado.

Gostou do conto? Deixe um comentário!

Filha das Sombras – Parte 2

Ainda não leu a parte 1 do conto? Clique no botão abaixo:

Filha das Sombras – Parte 2

Desde o momento que entrei na embarcação para Glóriam, a cidade que dava acesso à Córvia, meu coração gritava de saudades de Liana. Sentia-me terrivelmente arrependida de ter mentido, apesar de não ter nenhuma outra escolha. Enquanto observava as ondas que me levavam até a capital, imaginava como seria voltar para casa, para os braços de Liana e dizer:

— Eu consegui! Eu restaurei a magia de Esfix!

Ela ficaria confusa a princípio, tenho certeza. As pessoas, especialmente as mais novas, não sabiam que, há muitos e muitos anos, havia magia em Esfix. Quando era um pouco mais velha que Liana, conheci uma família viajante. Eles eram descendentes do povo mágico de Córvia. A mulher, quando estalava os dedos, produzia uma pequena luz azul. 

Eles encheram minha cabeça com relatos de guerreiros mágicos que conseguiam atirar pequenas bolas de fogo com as mãos e até mesmo criar objetos com a matéria ao redor. Eu, que estava acostumada a criar as coisas — com plantas e não magia —, fiquei extremamente empolgada com as possibilidades que aquele mundo podia oferecer.

A família viajante foi embora tão rápido quanto chegou, deixando comigo um caderno repleto de runas corvianas, que ninguém mais conseguia ler. O desejo pela mágica permaneceu. Sei que não me lembrarei, em detalhes, da viagem que levará para Córvia, mas tenho certeza que jamais irei esquecer o que vou encontrar lá 

***

Tudo era diferente em Glóriam. Havia um som persistente de metais arranhando. Essa era a principal função da capital: fazer com que toda a província pudesse ter armas. Ignorando as possíveis distrações provocadas pela cidade, como conseguir uma nova adaga, saí do centro de vendas que ficava próximo ao porto e caminhei até o primeiro cocheiro que encontrei. 

Para minha tristeza, ele dissera que não fazia mais viagens à Córvia. Ninguém mais se interessava por lá. Porém, ele havia sido abordado por alguns outros jovens que estavam chegando à Glóriam pelo mesmo motivo que eu. Eles estavam hospedados na Pousada Espadas de Ferro, que ficava próxima ao Rio das Lágrimas. Algo em meu peito dizia que não era coincidência.

— Ultimamente, muitos forasteiros estão interessados naquelas ruínas amaldiçoadas… — o cocheiro disse, por fim. — Boa sorte, senhorita. Você irá precisar.

Por um momento, tive a impressão de ver o meu colar se iluminar em roxo.  

***

Não foi difícil encontrar a pousada e nem o grupo de estudiosos. Eles estavam reunidos no salão. Haviam juntado algumas mesas, enfeitadas por mapas e pergaminhos.

Seguindo a atitude do cocheiro, julguei-os pelas roupas: eram de Ésria, a cidade irmã de Déria. Ésria era o lar daqueles que, séculos atrás, habitavam Córvia. Mas, ao contrário de mim, Ésria não fazia esforços para recuperar a antiga glória do povo mágico, pelo contrário. Pareciam mais interessados em esquecer.

Talvez eu estivesse olhando fixamente para o grupo enquanto me perdia em meus pensamentos de hesitação e insegurança, pois uma jovem, provavelmente da minha idade, veio até mim. Fiquei sem fôlego. Ela era linda. Seus cabelos castanhos caiam como cascata até sua cintura. 

— Posso te ajudar? — A jovem perguntou com uma voz sedosa.

— Claro — olhei para os meus pés, pois sabia que minhas bochechas estavam pegando fogo. — Sou uma pocionista de Déria, mas desejo investigar Córvia. Vocês estão aqui para isso, certo?

— Sim — ela respondeu com uma voz suave e firme.

— Um chamado me trouxe até você… — Limpei a garganta. — Digo, até Glóriam — as palavras certas pareciam fugir da minha boca. — E eu tenho isso — tirei um pequeno livro da minha bolsa e entreguei para ela.

Ela analisou o conteúdo das primeiras páginas. Seus olhos cor de mel se espremeram para decifrar a caligrafia. Quando ela se deu conta do que estava lendo, foram as suas mãos que começaram a tremer. Ela sussurrou:

— Onde você encontrou isso?

— Ganhei de presente, há muitos e muitos anos. Um casal de viajantes passou pela minha vila quando eu era criança. Eles me contaram várias histórias sobre Córvia e deixaram esse caderno comigo. Nunca consegui entender a escrita e nem o seu valor. 

A jovem sorriu e meu coração se derreteu por um momento — mas me lembrei por que estava ali. Ela me puxou pela mão e me guiou até sua mesa. Os outros estudiosos não fizeram perguntas. Acho que o cocheiro tinha razão. Ultimamente, as pessoas estavam chegando até aquele lugar.  

— Meu nome é Belisa — ela disse depois que nos sentamos. — Estudo cartografia na Academia de Sobrânia. Estamos pesquisando sobre um local onde o último mago foi enterrado. Ninguém sabe a localização do seu túmulos, mas sabemos que há algo importante lá. Todos os cadernos de viajantes falam sobre ele.

— Cadernos de viajantes? — perguntei, confusa.

— Sim, como o seu! Os últimos descendentes dos magos de Córvia viajaram por toda Esfix deixando para trás a memória da magia, e cadernos com essas histórias. É por causa desses viajantes que nós nos lembramos — ela sorriu. Parecia otimista.

— Vocês conseguem ler as runas? — Minha fascinação só aumentava. 

— Nem todos nós. Temos uma especialista — ela apontou para uma garota mais velha, que traja roupas simples, mas elegantes. — Bom, tente ler esse enquanto está aqui.

Ela me entregou um caderno de couro enfeitado por símbolos estranhos.  

— Leia e aceite o chamado — ouvi em minha mente assim que meus dedos tocaram as folhas carcomidas pelo tempo. Girei o pescoço, mas não havia ninguém perto de mim. Belisa já havia se levantado para entregar o meu caderno à garota especialista.

Mordi o interior da boca. O suor voltara. Por algum motivo, a voz parecia mais forte e muito assustadora agora que eu estava perto de Córvia. 

— Aceite o chamado, Ágata. Leia — o ruído ecoou pelos meus ouvidos, contra minha vontade. Abri o livro e senti cada pedacinho do meu corpo estranhar aqueles símbolos desenhados em vermelho. Demorou um tempo até eu entender que eles haviam sido desenhados com sangue. 

Filha das Sombras – Parte 1

Sinopse

A magia está acabando na província de Esfix. Porém, segredos antigos podem relevar a solução para o problema. Ágata, uma simples pocionista de Déria, recebeu um misterioso chamado, uma voz em sua mente dizendo de que ela devia ir até Córvia, a cidade mais antiga de Esfix. Em meio aos escombros e ruínas corvianas, Ágata encontrará uma forma de restaurar todo o poder mágico de Esfix. Só que tudo vem com um preço, e talvez esse seja alto demais.

Filha das Sombras – Parte 1

What will it take to make you capitulate?

We appreciate power

We Appreciate Power – Grimes, HANA

O colar em meu peito brilhava em cores diferentes dependendo da luz. Quando o caldeirão de poções de cura fervilhava um musgo líquido, levemente viscoso, meu rosto se iluminava em um estranho tom de verde. 

Sempre gostei de observar como uma pedra tão inútil — achada à beira de um dos rios do bosque — pudesse apresentar tantas variações. 

Além da minha admiração passageira, nunca prestei atenção no que as cores pudessem significar. Algumas das estudiosas de Déria se dedicavam a isso, mas não era esse o meu objeto de investigação. O meu verdadeiro interesse era um segredo para todos, exceto para o meu coração.

Nunca dei muita importância para a pedra, até que, em uma noite escura, sem outra fonte de luz, o colar refletiu um tom de roxo, igual a uma tulipa solitária no campo sombrio. Como a pedra poderia espelhar uma luz que não estava ali? O medo fez com que meus olhos encontrassem dificuldade para se fecharem. Neste dia, eu não consegui dormir.

Quando finalmente tive coragem de fechar os olhos, escutei uma voz distante me chamando. Não sei dizer se a voz era real ou um mero fruto da minha imaginação. Talvez eu estivesse recebendo a visita de algum deus — mas os deuses não existiam mais, já haviam sido esquecidos há séculos. Outra possibilidade, provavelmente a mais correta, era o meu desejo de sair de Déria — e poder estudar o que eu tanto desejava. 

Eu queria, mais do que tudo, explorar os vestígios da civilização que, um dia, abrigou o maior povoado mágico da província. Mesmo sendo uma deriana, filha do povo que estuda a natureza, eu queria ter a mágica do povo de Ázio. Aquela que ainda restava, mesmo sendo tão pouca.

— Venha para Córvia. Seu destino está aqui, Ágata. Você aceita o chamado? — a voz distante perguntou, trazendo-me de volta ao estranho e assustador momento. Suas palavras escorreram pelos meus ouvidos como minha poção verde pegajosa. Era impossível ignorá-la. Logo, logo, deixaria uma marca na superfície. 

— Você aceita o chamado? — a voz insistiu. Parecia impaciente, como se eu fosse mais uma em uma longa fila de corações desejosos. 

Segurei o colar brilhante, observando o roxo tomar conta do meu quarto através das frestas deixadas pelos espaços entre meus dedos.

— Aceito — respondi, mais para mim mesma do que para a voz. Não acreditava que realmente houvesse alguém ali. — Eu aceito o chamado.  

***

— Você não pode ir embora! — Liana implorava, levando a mãozinha até o nariz para secar o catarro que embolava em sua garganta, impedindo que suas palavras saíssem completamente. 

— Eu sei, minha querida. Vou sentir saudades também, mas preciso ir. — Tentei persuadi-la, usando todo o meu charme apaziguador de irmã mais velha.

Liana fungou o nariz e correu para me abraçar. Fechei os olhos, aproveitando todo o calor, todo o amor fraternal que emanava dela. Liana era grande parte da minha vida, talvez a melhor parte dela. Eu a ensinava sobre plantas e poções, levava-a para caçar animais pequenos no bosque de Déria e, mais importante, sempre a fazia rir. 

Ela gostava de caçar com arco e flecha, então, sempre praticávamos juntas. Qualquer um podia perceber que, com apenas sete anos, Liana já havia escolhido sua arma. A minha era uma adaga, simples, porém mortal. Nós, guerreiros derianos, éramos conhecidos por envenenar nossas lâminas. Mas não Liana. Ela apreciava a beleza da concentração, de um tiro limpo e bem calculado. 

Por essa razão, eu esperei que ela reagisse com mais firmeza. Talvez eu apenas estivesse esperando demais de uma criança. Não me culpava tanto por isso. Eu havia sido criada dessa forma: os derianos estudam a botânica, mas nunca criam raízes. Estão dispostos a ir para onde o vento leva — como uma semente perdida em um vendaval. 

Para a tristeza de Liana, eu estava pronta para voar. 

— Volto logo, prometo.

— Promete mesmo? — ela perguntou com a voz fanha.

— Prometo sim.

Essa foi a primeira vez que menti para Liana. Não podia fazer essa promessa. Para ela e para todo o resto da minha família, eu estava indo para Glóriam, a capital da província, para visitar a biblioteca real — e aprimorar meus conhecimentos de pocionista.

Não estava.

Eu aceitara o chamado. Córvia era o meu destino, a cidade de ruínas mágicas. 

Informações: